Quando a dor não é mais destino: o trabalho de análise e o aprender 'olhar através.'
Atualizado: há 2 horas
Em uma das últimas sessões, um paciente que havia iniciado seu processo analítico tomado pela dor de um término me disse, depois de algum tempo de análise, com certa leveza muito inédita no olhar: “Agora eu entendi o que você falava. Agora eu consigo olhar através.”
Essa expressão (é preciso olhar através) foi dita a ele nos primeiros encontros. No início, parecia apenas uma ideia distante, abstrata, quase impossível diante do peso que carregava. No momento, a única coisa que o paciente conseguia enxergar era a dor da ausência de seu objeto de amor, a perda desse objeto - o luto. Ele havia chegado profundamente atravessado pela separação, paralisado por pensamentos obsessivos e pelo medo constante de reencontrar a ex-companheira.
Além dos pensamentos obsessivos voltados à ex-parceira e ao término, o sujeito também apresentava um quadro de TOC, o que exigia dele grande esforço psíquico nas tarefas mais corriqueiras. A separação, nesse contexto, intensificou ainda mais a dificuldade de sustentar-se no presente. Atos simples do cotidiano tornaram-se insuportáveis — tudo remetia à perda, ao que havia sido rompido.
Como ocorre com muitos sujeitos na contemporaneidade, a queixa cotidiana se organizava em torno de ansiedade. Era uma ansiedade que transbordava o corpo, tomando a experiência em forma de angústia difusa. Uma ansiedade que limitava muito o sujeito.
No meio disso, as férias que poderiam representar um tempo de descanso tornaram-se um dos cenários mais ansiogênicos: a casa da família onde ele costumava se passar as férias, ficava próxima à residência da ex-parceira, e essa simples possibilidade de encontro transformava a antecipação em um verdadeiro gatilho de pânico. Nesse ponto, luto, frustração e ansiedade se entrelaçavam, produzindo um sofrimento psíquico que parecia não oferecer escapatória.
Mas foi na repetição do dizer, na escuta sustentada, na elaboração da dor e dos afetos mais confusos, que algo começou a se deslocar. A análise, nesse caso, não foi sobre “esquecer” alguém, mas sobre poder se separar simbolicamente de um objeto que ocupava lugar demais. Foi sobre construir um olhar capaz de atravessar a cena, e não se fixar nela.
Hoje, esse paciente pode finalmente dizer que olha através. Que consegue olhar através.
Através da figura da ex, do fim da história, da dor cristalizada. E aqui, isso se trata de conseguir ver o que há além, e sobretudo, o que pode haver depois.
Porque quando o sujeito passa a olhar através, o que antes era falta absoluta pode se transformar em espaço. Espaço de simbolização, de desejo, de experiências outras e de vida. Trocando por miúdos: Não é esquecer; é deixar de carregar no colo.
Não é apagar; é olhar sem que tudo se quebre por dentro.
É quando o nome do outro já não ocupa todos os silêncios, e a dor não fala mais sozinha.
É o momento em que o sujeito, enfim, olha através e vê que há caminho e que é possível caminhar.


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